sábado, 16 de fevereiro de 2008

Já sentindo-se velho e conhecedor das núvens que sempre admirara nos momentos de solidão, decide escrever uma pequena biografia. "Algo a ser deixado aos meus netos", teria pensado outro homem. Porém, Lucas - sem filhos - nunca teria os netos que pedira a Deus.
Seu desejo de ter a vida contada em um livro era uma tentativa de preservar sua memória. Almejava, ao menos, ser eternizado em linhas e páginas. Queria ter um resquício de vida na Terra.
"Páginas que nunca serão lidas."

começou a escrever.
"Quem já sentira na pele a solidão, como eu, pergunta-se diariamente se será lembrado por alguém quando vir a falecer. 'Qual de meus empregados ira lembrar-se da data em que eu partiria?', me pergunto, pois somente meus subalternos que convivem comigo nos dias atuais.
"Mulher e filhos? Nenhum dos dois."

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

40 anos depois...

Sozinho, a casa vazia. Lucas contempla, pela janela, as lágrimas das nuvens, que caíam grossas e pesadas sobre o telhado, fazendo um barulho reconfortante, mas tristemente nostálgico. Lembrando-se de coisas de há muitos anos, ele chora, chora copiosa e silenciosamente, como não fazia desde que era uma criança no pátio dos avós. As suas lágrimas, também grossas, deslizam pelas marcas da idade ao redor de seus pesarosos olhos até as bochechas. A solidão do homem é quase palpável, como um véu, ou uma teia ao redor de tudo naquela sala. O barulho da chuva continua.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

[2]

Ela ainda chorava no carpete da sala quando a secretária de seu namorado tentou ajuda-la. Primeiro colocou-a sentada na cadeira em frente a mesa, depois começou a consola-la.
A secretária, que até então desconhecia a mulher, descobriu que o nome dela era Mariana. Namoravam a 10 meses e a discussão toda fora fruto de uma pergunta simples sobre o que Lucas achava de seu novo vestido.

[1]

"Essa não é uma de suas peças ridículas... é a vida real, merda!"
"Ridículas ou não, elas me fazem ganhar muito mais do que ganho com o tempo que gasto contigo. E se não queria uma opinião sincera sobre o assunto não deveria ter vindo até aqui. Que perguntasse a cínica da tua mãe."
"O mínimo que eu esperava de ti, depois de todo esse tempo, era que tu fosse honesto comigo o suficiente pra me falar o que tu acha d..."
"Mas eu fui. E é isso que te fere. Eu fui tão honesto com a minha opinião que falo: 'Isso está uma bosta'."
"É inveja, é isso? O que tu quer de mim afinal?" Após um breve silêncio, vociferou novamente. "Me responde, se tu é bem homem."
"Não é nada, eu só dei a minha opinião sobre o teu..."
"Ah. É uma bichinha não é." E começou a imitar uma galinha. "Pó, popopó..."
"Tu sabe muito bem que sou homem. Não era isso que tu falava ontem na cama pra mim? Ou isso tu fala pra qualquer um?"
"É... falo pra qualquer um mesmo..."
"Sua puta."
Depois de despejar a ofensa contra ela, deu as costas e deixou-a sozinha em seu próprio escritório. Ela, que estava chorando no chão da sala dele, ainda gritou: "Puta não, que eu nunca te cobrei nada pra fingir, seu... seu ... BROCHA!"
O andar inteiro do prédio, que até então escutava todas as palavras em silêncio, se dividiu entre aqueles que riam da impotência dele e aqueles que estavam a beira de uma crise de nervos. Àqueles que riam ele disse que fora 'somente uma vez'. Falou enquanto entrava no elevador para ir ao Saguão Principal.